Em 1983, quando Luis Antonio Lindau defendeu sua tese de doutorado na Universidade de Southampton, no Reino Unido, o conceito de BRT (Bus Rapid Transit) ainda não tinha nome. O que ele havia feito, durante quase quatro anos de pesquisa, tinha sido modelar matematicamente o desempenho de corredores de ônibus de alta capacidade: projetar fluxos, calcular limites operacionais, , simular o que aconteceria se aqueles sistemas fossem levados ao extremo. A ideia era, nas suas palavras, "revolucionária", especialmente para os ingleses, acostumados a pensar em metrô e em trem metropolitano para atender demandas elevadas, pouco inclinados a enxergar no ônibus um protagonista.
Décadas depois, o TransMilenio, de Bogotá, provaria que ele estava certo: que corredores de ônibus podem transportar quantidades elevadas de passageiros.
De Porto Alegre a Southampton
A trajetória de Lindau começou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em engenharia civil em 1978. Naquele mesmo ano, ingressou em um curso de especialização promovido pela EBTU (Empresa Brasileira de Transportes Urbanos), criada para suprir a escassez de conhecimento técnico em transporte público no Brasil em um momento em que o governo federal investia pesadamente na implantação de corredores de ônibus e trens metropolitanos em grandes cidades brasileiras.
Na Universidade de Southampton, integrou grupo de pesquisa em engenharia de tráfego e transportes urbanos onde desenvolveu modelos computacionais que fundamentariam sua carreira. Em evento da UTSG (Universtities´ Transport Studies Group) dos anos 80, quando seu trabalho de doutorado ficou em segundo lugar, atrás de uma tese sobre encadeamento eletrônico de veículos em rodovias, conceito então muito distante da realidade prática, mas que, “com o advento dos veículos autônomos, está bem perto hoje de se tornar realidade”, comentou.
O Aeromóvel e o laboratório na rua
De volta ao Brasil, em meados de 1983, Lindau ingressou como professor na UFRGS. Seu primeiro projeto de pesquisa foi com o Aeromóvel, um sistema APM (Automated People Mover) desenvolvido no Rio Grande do Sul, que recentemente iniciou operação comercial no Aeroporto Internacional de Guarulhos. A experiência o colocou em contato direto com a iniciativa privada e com a interface entre pesquisa acadêmica e aplicação prática, uma relação que marcaria sua trajetória profissional.
No período que antecedeu seu pós-doutorado na University College de Londres, Lindau esteve próximo das articulações que levariam à fundação da ANPET. Junto com colegas como Orlando Strambi, Wagner Colombini e Tânia Fischer, participou das discussões iniciais sobre a oportunidade da criação de uma associação nacional de pesquisa em transportes. Lindau é um dos fundadores da ANPET.
À frente da ANPET
O envolvimento de Lindau com a ANPET antecede à presidência. Em 2000, ele articulou a realização do Congresso Pan-Americano de Transportes em Gramado, uma aposta deliberada em acelerar a inserção internacional da associação. "Conseguimos trazer vários professores e pesquisadores renomados do Chile e da Inglaterra", lembrou. O evento foi também uma tentativa de aproximar a ANPET da indústria de transporte, estreitando relações da academia com operadores e provedores de tecnologia, à exemplo do TRB (Transportation Research Board) americano.
A partir dessa iniciativa, Lindau assumiu a presidência entre 2002 e 2006 com uma meta declarada: "Somos uma associação de três dígitos. A minha proposta é a de encerrar o mandato com seis dígitos em caixa." O objetivo foi cumprido. Além do crescimento, ele destaca a aproximação entre centros de pesquisa de diferentes regiões do país. "Conseguimos quase criar uma unidade nacional", disse, referindo-se ao compartilhamento de iniciativas e projetos entre grupos de pesquisa que antes operavam de forma mais isolada.
Do campus para a cidade
Após se aposentar da UFRGS, como professor titular em transportes da Escola de Engenharia, Lindau ingressou no WRI Brasil como diretor de cidades. O WRI Brasil tem, na mobilidade urbana, uma de suas fortalezas. Sua nova equipe, formada por vários ex-alunos de mestrado e doutorado, trabalhou para o Comitê Olímpico Brasileiro que precisava demonstrar, ao Comitê Olímpico Internacional, que uma rede de BRT seria capaz de atender a mobilidade do Rio de Janeiro durante a Olimpíada de 2016. A equipe também apoiou Belo Horizonte e Salvador na implementação de seus sistemas de BRT.
A diferença em relação à universidade, ele reconhece, é de objetivo. "É uma pegada bem diferente da universitária. Trabalhamos muito próximos a prefeituras, ao governo federal e ao setor privado em prol da implementação de transformações urbanas." Mas a convicção de fundo é a mesma de sempre. Quando questionado por um avaliador do concurso de professor titular sobre a localização de seu laboratório, Lindau respondeu: "Meu laboratório é a rua."
Assista à entrevista:
