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Um dos fundadores da ANPET e presidente da Associação entre 1999 e 2002, José Eugênio Leal concedeu entrevista em razão dos 40 anos da entidade, relembrando a trajetória que o levou da Engenharia Civil à pesquisa em transportes.

Ainda estudante de Engenharia Civil na PUC-Rio, José Eugênio Leal precisou deixar o Brasil e terminar o curso na Universidade Católica do Chile. De lá, seguiu para a Alemanha, onde cursou o doutorado na Universidade Técnica de Berlim. Foi em Berlim, num encontro casual com o reitor da Universidade Federal da Paraíba, de onde vinha sua família, que decidiu tentar a vida profissional na Paraíba. Voltou ao Brasil em 1980 e passou quatro anos na UFPB antes da PUC-Rio trazê-lo de volta ao Rio de Janeiro.

Entre transporte urbano e logística

Na PUC, Leal integrou o Departamento de Engenharia Industrial, onde inicialmente se dedicou ao transporte urbano de passageiros, tema também da sua Tese de Doutorado, um modelo de previsão de demanda construído a partir de quase um ano de coleta de dados em Lisboa. De volta ao Brasil, colaborou para a modernização do Programa de Mestrado em Transportes da UFPB. Quando retornou à PUC, passou a atuar também com logística, mantendo desde então dois campos de trabalho: transporte urbano e logística, com pesquisa operacional aplicada a transportes e alguma atuação em transporte ferroviário.

Pesquisador do CNPq desde que chegou ao Brasil, alcançou o nível 1A, com uma única interrupção ao longo de vários anos. Atualmente retomou a trajetória como pesquisador sênior.

Um fórum que faltava

Leal é um dos fundadores da ANPET, presente desde o primeiro evento. Segundo ele, não existia até então um fórum específico para pesquisa em transportes no Brasil: quem trabalhava com transporte urbano sentia essa falta com mais força, já que outras áreas da engenharia civil tinham espaços consolidados para apresentar trabalhos.

As entidades profissionais existentes eram voltadas à prática, e faltava algo mais acadêmico. O primeiro evento aconteceu em Brasília. Nos primeiros anos, os trabalhos apresentados tinham nível ainda distante de publicações de primeira linha, mas Leal aponta isso como um fator que, paradoxalmente, ajudou a Associação a crescer: a linguagem acessível atraiu tanto pesquisadores quanto profissionais do setor, incluindo patrocinadores, que não se sentiam deslocados nos eventos. Com o tempo, os eventos passaram a circular por diferentes estados: de Brasília e Rio de Janeiro a São Paulo, Minas Gerais e Bahia.

A gestão e o fundo setorial de transportes

À frente da Associação, Leal descreve sua gestão como um esforço de manter o funcionamento básico da ANPET (os congressos e a revista científica) e de aproximar a entidade do Ministério dos Transportes, do Ministério da Ciência e Tecnologia e do CNPq, onde chegou a integrar o comitê assessor de transporte e produção. Ele cita o acesso da entidade à época a personalidades renomadas, como o ministro dos Transportes, convidado para um congresso em São Carlos (porém que não conseguiu comparecer por um imprevisto em Bauru).

Já depois de sua gestão, tentou-se viabilizar um fundo setorial de transportes dentro do Ministério da Ciência e Tecnologia, alimentado por percentual pago por empresas de telecomunicação que usavam a infraestrutura das estradas. Leal descreve essa jornada, na qual também estiveram envolvidos, entre outros, Anísio Brasileiro e Osvaldo Lima Neto, como "uma batalha que a gente quase ganhou": os recursos não se realizaram como esperado, que acabaram direcionados para pesquisas que não necessariamente tinham relação direta com o planejamento e a infraestrutura de transportes.

Pilotos da inteligência artificial

Para Leal, a área de transportes avançou de forma consistente em planejamento, conceitos e pesquisa operacional, com progressos também na infraestrutura física. O maior desafio atual, na sua visão, está na sofisticação tecnológica: carros autônomos, controle centralizado de sistemas de tráfego e, sobretudo, a inteligência artificial. Ele reconhece que textos gerados por IA costumam carregar um "sotaque" identificável, mas insiste que o problema não é resistir à tecnologia: é se preparar para ela.

"O que adianta é você preparar as pessoas para serem pilotos da Inteligência Artificial", diz. Por exemplo com relação à criação de códigos de computador. Hoje as IA’s desenvolvem na hora códigos complexos. Se o usuário não tem um conhecimento sólido de código, argumenta, fica impossível tanto criticar quanto aproveitar plenamente o que a IA entrega. A nteligência Artificial é  um desafio tanto para o ensino quanto para a profissão. Pessoas com conhecimentos superficiais da área de transportes podem demandar e obter soluções geradas por IA. Mas a excelência no exercício da profissão na área será garantida pelas pessoas que tenham conhecimentos sólidos e saibam extrair, com competência, o melhor da IA.

Ao olhar para os 40 anos da Associação, Leal fala em satisfação por ver o que foi plantado décadas atrás seguir funcionando "com toda a força", e parabeniza os presidentes que mantiveram a entidade ativa "com a mesma qualidade ou com qualidade cada vez melhor". Encerra com um pedido: que a ANPET não deixe de homenagear, ao longo dessa história, pessoas como Antônio Galvão Novaes, ex-presidente falecido recentemente, e Thereza Afflalo, secretária da associação por muitos anos. Leal conta ainda que está terminando um livro sobre distribuição física que também homenageia Novaes, e que pretende lançá-lo durante o congresso da ANPET em Búzios, que este ano acontece entre os dias 26 e 30 de outubro.

Assista à entrevista: