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Anísio Brasileiro chegou à entrevista com uma caixa de documentos que guardava há décadas: formulários manuscritos de avaliação de artigos, programações de congressos datilografadas, uma proposta de política federal de transportes. "Não tinha e-mail. Funcionava tudo na base do correio", diz. É a memória física de uma associação construída congresso por congresso.

Professor da Universidade Federal de Pernambuco e engenheiro civil com doutorado pela École Nationale des Ponts et Chaussées, na França, Anísio Brasileiro de Freitas Dourado presidiu a ANPET entre 1997 e 1998 e integrou seu comitê científico por anos. Na série de entrevistas produzida para os 40 anos da associação, ele fala sobre a construção institucional, a articulação política e o rigor científico que sustentaram a ANPET muito antes de ela ganhar a visibilidade atual.

Quando resume os anos de formação da ANPET, Brasileiro relembra dois nomes importantes para a história da associação, que aparecem sempre juntos, em funções distintas e complementares. 

“Teresa garantia a nossa unidade interna e Luís Ribeiro garantia que a gente existisse”.

Teresa Afflalo era o centro de gravidade informal da associação: acompanhava tudo, sabia de tudo, era referência para todos. Luís Ribeiro, engenheiro do GEIPOT (a então Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes), resolveu um problema prático que poucos conhecem: onde registrar juridicamente uma associação que existia mais em encontros do que em endereços físicos. Foi ele quem articulou para que o primeiro CNPJ da ANPET ficasse sediado na própria sede do GEIPOT, em Brasília. Sem isso, a associação não existia perante os órgãos públicos e não poderia captar recursos.

A proximidade com o GEIPOT não era apenas formal, era estratégica. A equipe da empresa funcionava como expertise técnica do Ministério dos Transportes, e era por essa porta que a ANPET conseguia fazer sua voz chegar ao governo federal.

Uma associação que queria influenciar políticas

Esse papel político não era acidental. Anísio exibe como evidência um documento guardado desde os anos 1990: "Elementos conceituais para uma política federal de transporte urbano e a contribuição universitária". "Com esse documento, a gente queria dar uma contribuição à formulação de política de transporte no Brasil", explica.

Foi nesse espírito que a ANPET se envolveu com o fundo setorial de transportes, mecanismo criado para que parte das receitas das concessões rodoviárias financiasse pesquisa na área. O problema era que o dinheiro não chegava. A saída foi ir ao governo: uma delegação da associação foi ao Ministério da Ciência e Tecnologia conversar com Eduardo Campos, então ministro e futuro governador de Pernambuco. 

"Ele foi super gentil, fez várias ligações." O mesmo espírito levou a ANPET ao Congresso Nacional para defender a manutenção do GEIPOT, extinto no governo FHC.

A ciência feita à mão

No final dos anos 1990, quando presidia o comitê científico, tudo era feito pelo correio. Os artigos chegavam em envelopes; os avaliadores preenchiam fichas manuscritas e as devolviam da mesma forma. Com as notas em mãos, a diretoria se reunia fisicamente por três dias seguidos, dez horas por dia, para resolver os empates. 

"Era um trabalho muito grande e muito cuidadoso". Anísio guarda até hoje as fichas originais com assinaturas. Dessa cultura de rigor nasceu, mais tarde, o sistema digital de submissão e avaliação que a ANPET usa até hoje.

O transporte não se resolve sozinho

Para Anísio, a crise do transporte público urbano, a queda da demanda por ônibus, o espraiamento das cidades e o crescimento do uso de motos em condições precárias são um problema científico urgente. 

“As teses e dissertações têm que ter uma aplicação. Não podem ser apenas para nos mantermos diante da necessidade de publicação em periódicos.”

Ele também aponta para um distanciamento histórico entre engenharia de transportes e urbanismo que considera prejudicial. "O transporte não se resolve sozinho. Ele está inserido dentro de uma dinâmica de cidade."

Quarenta anos e um passar de bastão

"O que me vem é um sentimento de que as gerações que fizeram os 40 anos deram a vida. Elas se envolveram muito." 

Nos congressos atuais, ele observa os auditórios com 400 inscritos, maioria jovens, com a tranquilidade de quem viu a associação nascer do zero. O risco que enxerga não é de continuidade, mas de rumo: "Se um risco há, é de a gente não conseguir um envolvimento direto nessa dinâmica de problemas e respostas para eles. Mas sou otimista e acredito que estamos conseguindo, estamos no caminho certo. Longa vida à ANPET.”

Assista à entrevista completa com Anísio Brasileiro: